quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Fim de Ano

Todo fim de ano é a mesma história: muita saúde pra cá, muita saúde pra lá... Não parece meio repetitivo? Por que se deseja tanto isso?
Sendo eu um (quase) profissional da saúde, não posso deixar de falar um pouco dela. Começarei não com vivências na universidade ou nos hospitais pelos quais passei, mas sim pelas minhas próprias experiências pra exercitar um pouco a velha e surrada ética.
Nasci num ano importante para a saúde, pelo menos no Brasil: 1988, ano do surgimento do SUS.  Desde cedo, quando nem sabia muito bem o que era, aprendi com minhas tias que deveria defendê-lo. Defendê-lo por que ou de quem eu também não sabia ao certo.
Utilizei muito pouco os serviços de saúde até hoje e quando adoecia me tratava em casa mesmo, embora houvesse contraído várias doenças da infância: hepatite A, varicela, caxumba, talvez rubéola e repetidas infecções nas amígdalas (minha tia me disse que nem tenho mais amígdalas por causa de tantas infecções!). Estas últimas também devem ter sido a causa de uma glomerulonefrite e um início de febre reumática. Devo agradecer aos “meus familiares” que são profissionais da saúde. Ter profissionais da saúde na família faz uma grande diferença. Deve ser por isso que todos os pais sonham em ter filhos dessa área, sobretudo filhos médicos. Eles foram um dos motivos que me fizeram precisar tão pouco dos serviços de saúde.
Uma das poucas vezes em que utilizei esses serviços (me refiro aos de assistência) foi quando tomei minhas vacinas na infância. Minha mãe preencheu todo o meu cartão de vacinas. Costumo dizer que ela não podia nem ver movimentação na frente do posto de saúde (na época era posto) que me levava. Lembro bem que eu e muitas outras crianças tínhamos medo do Zé Gotinha, mais do que da furada. Ah, a propósito, sempre fui muito bem cuidado por mainha, outro fator de extrema importância que evitou várias internações, devo agradecer também a ela.
Sei que não trago muitas novidades, mas conto isso para mostrar que uma criança bem cuidada e bem alimentada, e olhe que eu não cooperava muito neste item, pode reduzir bastante a quantidade de internações, independente de ter ou não médicos e enfermeiros na família.
Ah, em 2003 tive apendicite e fiz cirurgia. Sobre isso creio que devo falar um pouco mais.
Foi assim: tive uma dor moderada na barriga por dois dias. No terceiro dia fiz um hemograma num laboratório particular, fiz uma ultrassonografia numa clínica particular e na tarde do mesmo dia fiz uma cirurgia num hospital privado. Meus pais nunca tiveram plano de saúde, precisaram pedir um empréstimo para pagar a cirurgia. No pós-cirúrgico tive uma complicação que foi sanada graças aos cuidados que recebi da família.
Diante disso me pergunto: por que não procuramos um hospital público? Embora defendamos o SUS, não somos cegos! Nosso sistema tem gravíssimos problemas. E quando se fala em saúde também se fala em vida. E por ela a gente faz tudo, até jogamos fora nossos ideais. Não acho que somos hipócritas por termos feito isso, não há hipocrisia quando a vida está em jogo. E ressalto que, mesmo tendo ocorrido isto, continuamos com nossos ideais e defendendo o SUS.
Acho que devo melhorar a pergunta para que não pareça que estou chamando meus próprios pais de hipócritas: por que a saúde pública é tão mal vista? A discussão certamente é muito ampla e há pessoas muito mais bem informadas que eu falando sobre isso. Mesmo assim arrisco especular. Agora sim, trago minhas experiências que aconteceram quase que exclusivamente em serviços públicos.
Primeiro cito um exemplo positivo (ou quase), estagiei num hospital infantil na zona norte de minha cidade. Lá fui surpreendido com o bom tratamento que é dado às crianças (parece que quando os pacientes são crianças, os profissionais são mais bonzinhos) e lembrei que, na época em que fiz minha cirurgia, eu ainda tinha idade para ser usuário de lá. Mesmo assim notei algumas diferenças: os cômodos das enfermarias tinham mais de um leito. No hospital em que fui internado havia apenas um leito por cômodo, como num hotel. Essa é uma diferença fundamental. No mundo individualista em que vivemos, não somos educados a dividir nada. Até no ônibus, um transporte coletivo, procuramos sempre sentar no banco em que os dois assentos estão desocupados só para evitar ter contato com o outro.
Se num ônibus é assim, imagine quando o assunto é saúde! Ou melhor, se quando estamos saudáveis é assim, imagine quando estamos doentes... Aí sim, não estamos dispostos a dividir absolutamente nada. Não estamos dispostos a compartilhar a dor do outro, nem a sentir os odores da doença do outro, nem a conviver com os parentes e acompanhantes do outro e nem a expor toda nossa intimidade para o outro. E tudo isso agravado pelo medo de contrair a doença do outro.
Entendem agora por que absolvo meus pais? Só fizeram o que acharam que era melhor pra mim quando adoeci. Eles e eu não temos culpa por vivermos num mundo que nos forma com esses valores. Somos bombardeados pela mídia, por uma sociedade e por um mercado que prezam pelo individualismo. Mercado este que transmite a idéia de que tudo o que é pago é melhor porque pode ser cobrado paralelamente a um sistema público onde as reivindicações quase nunca são atendidas por transmitir a falsa idéia de “serviço gratuito” ou favor. Muitas vezes essa reivindicação de que falei não ocorre, porque os usuários, quase sempre de baixa escolaridade, não conhecem seus direitos e às vezes pensam que realmente estão recebendo favores. Por isso seria importante que nós, mesmo da classe média baixíssima, que conhece um pouco dos direitos, utilizássemos esse sistema público e estivéssemos lá gritando e exigindo melhorias (mas quem está disposto a fazer isso doente? E ainda, quem está disposto a fazer isso doente e sozinho? Estamos unidos enquanto classe? Acredito que não).
Esses dias, um paciente reclamando do atendimento de um hospital público disse “sou eu quem paga seu salário!”, no que responderam de volta “então me faça uma vale, preciso de dinheiro!”. Em relação aos profissionais, os problemas parecem se iniciar na formação dentro das universidades. Muitos deles ficam tão abarrotados quando chegam ao serviço e a realidade da doença e da condição humana é tão dura que chegam a um ponto onde têm de decidir se enlouquecem ou perdem a ética. E geralmente a segunda opção ganha. Eles estão longe de ser o único fator que impede uma assistência de qualidade, mas ainda assim são um dos.
Dentre outros fatores que contribuem com essa realidade temos a própria máquina burocrática do Estado que dificulta em muitos pontos a assistência, mas principalmente o capitalismo que, como disse uma sábia professora citando outro sábio professor, devora aos poucos o sistema como quem come um prato de papa quente pelas bordas, sem ser notado inicialmente, mas dando com o pé na bunda de todos no final. Há muitos outros fatores, mas deixarei para outros posts.
Todos vêem na televisão as inúmeras pessoas deitadas em macas nos corredores de hospitais públicos e a insatisfação com o atendimento na atenção básica. No estágio em que passei por esta, nunca fui tão tentado a desacreditar o SUS. Mas continuo defendendo sim, porque há outra realidade que não passa na televisão e é notada por poucos que precisa ser divulgada. Os serviços privados de saúde só se sustentam com a verba do SUS, são insustentáveis sozinhos. Os sistemas privados não prestam assistência a quem precisa dela por longos períodos, conheci um paciente que passou anos internado. Que plano cobriria isso? Só um do tamanho do Brasil, o SUS. Mesmo com toda a insatisfação da população atendida pela rede básica de saúde, ela tem mostrado ótimos indicadores, que a mídia não divulga. E naquelas situações em que os pacientes são obrigados a dividir quartos, surgem laços impressionantes de amizade, aparecem belos exemplos de solidariedade entre usuários, acompanhantes e profissionais. Muitos serviços privados têm problemas gravíssimos, estes não são exclusividade do serviço público.
Tenho vivenciado cada dia mais a assistência enquanto estudante e diante da situação da saúde como um todo não posso desejar, neste fim de ano, algo diferente de um Feliz 2011 e “muita saúde pra todos!”