sábado, 6 de agosto de 2011

À Minha Avó


Há dois mil anos os romanos resolveram homenagear seu primeiro imperador, Augusto, dando seu nome a um dos meses do ano: agosto. Mal sabiam eles que a superstição popular mais tarde difamaria essa homenagem: agosto, mês de desgosto.
No sertão, agosto é mês de seca, de fome e de escassez, mas a sábia natureza que a tudo tenta equilibrar, por misericórdia divina nos trouxe um alívio: justamente nesse mês nasceu a minha avó.
Talvez uma das lembranças mais antigas que eu tenha da minha avó seja a de sua chegada, de ônibus, vinda de Sousa trazendo um brinquedo pra Diego e pra mim. Lembro até qual era o brinquedo, era o Pega-peixe da Estrela, um de nossos muitos sonhos de consumo infantis.
Lembrar da minha avó é, sem dúvida, lembrar de todos os aniversários, não só os meus. Ela é a única avó que conheço que faz festa de aniversário para todos os filhos e netos. Foram muito poucos os anos em que não ganhei pelo menos um bolo. E as festas da minha avó são sempre fartas e, no dia seguinte, só para os netos ela conta onde esconde a bandeja de brigadeiros.
Minha avó me lembra preocupação: ela se preocupa e acompanha todos os nossos desafios e dificuldades. Recordo do dia em que passei no vestibular e liguei pra dar a notícia: ela me parabeniza e, emocionada e sem fala, logo passa o telefone pra vovô.
São inesquecíveis as histórias da minha avó. Ela nos conta que em sua infância, seu brinquedo preferido era o galamarte e que acreditava que o mundo terminava em Sousa. Além disso, ela relata com orgulho como alimentou irmãos e filhos, e estes nos revelam como minha avó sempre teve o dom da multiplicação dos pães trazendo gosto para onde antes não havia.
Elis Regina cantou que sempre acabamos sendo “como nossos pais”. Eu, porém, acrescentaria que somos também como nossos avós. Diria que há muito da minha avó em mim. Percebo isso quando me pego comendo leite condensado de madrugada ou até mesmo na minha aversão às visitas.
Uma vez eu disse que um conjunto de talheres dourados que a minha avó possui era o “tesouro da família Abrantes”. Nesta ocasião, aproveito para fazer uma correção: aqueles talheres nada são comparados ao que a senhora consegue fazer com eles, e mesmo o seu grande dom se torna pequeno diante da grandiosa Dona Tiquinha.
           Vovó, um feliz aniversário! E que a senhora possa, por muitos anos mais, trazer gosto ao agosto de nossas vidas.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Enfermagem


Há alguns dias, aconteceu minha formatura. Foi uma cerimônia muito linda, mas acabei nem sentindo direito. Parecia que estava anestesiado. Se nossa querida juramentista tivesse jurado um poema de Cecília Meireles, eu teria repetido tudo sem hesitar.  No final das contas, quebrei o suposto carma de não me formar.
Chegando ao fim desta longa caminhada, é impossível não relembrar os motivos que me fizeram escolher a Enfermagem como profissão. Nos tempos do temido vestibular, o que eu pensava, quando o assunto era profissão, era que queria algo que me permitisse ajudar os outros de alguma forma. Simpatizava com a Biologia e admirava meus parentes profissionais da saúde. Essas razões, aliadas à influência da família e até de colegas, foram as responsáveis por duas reprovações em Medicina.
Tudo bem, “nem sei se quero ser médico mesmo”, “o que eu quero é a área da saúde”. E dia após dia continuava sem saber para que curso prestar vestibular. Decidi às vésperas da inscrição: Enfermagem. “Mas você quer mesmo isso?”, “quer mesmo limpar catarro e bunda de gente?”. Quero!
Todos me tinham como alguém extremamente dependente que não sabia nem pegar a água da geladeira e beber, mas eu pensava que se havia pessoas capazes, por que eu não o seria? Tinha eu alguma deficiência? Não! Se tanta gente consegue, por que eu também não conseguiria?
Fazendo a inscrição, já me imaginava sendo um profissional muito comprometido que ia além das atribuições da profissão, alguém que se doa totalmente, quase um santo. Demorou um pouco até eu perceber que mal daria conta de minhas atribuições.
Os três primeiros períodos do curso de Enfermagem foram quase que só Biologia. Foram trabalhosos, mas divertidos. Uma época mais de descobertas que de aprendizado. A partir do quarto período, a Enfermagem propriamente dita começa a aparecer. É aí que começamos a nos deparar com a triste condição humana. E foi aí que, no íntimo, comecei a querer deixar o curso. Pensava: “não agüentarei passar o resto da minha vida vendo sofrimento...”, “mas ainda há tanto pra aprender, estou só no começo...”, “ainda vai chegar a parte boa do curso...”, “seria tanto tempo jogado fora...”. Resolvi permanecer.
A Enfermagem se propõe a ser a “arte do cuidar”. Mas o que vem a ser isso? Bom, mesmo depois de formado é um pouco difícil dizer. Mas depois de quatro anos e meio de curso, digo o seguinte: a Enfermagem é a profissão que lida com as diversas situações de saúde que um indivíduo ou um coletivo podem enfrentar. Só tem um problema nesse conceito: ele não diz absolutamente nada de prático. O que o enfermeiro faz, afinal? O campo de trabalho parece tão amplo (e amplidão acaba se confundindo com inexatidão) quanto esse conceito citado de forma que, muitas vezes, o enfermeiro acaba se tornando um “faz tudo” ou pior, um “quebra galho”.
Vi uma Enfermagem que quer se desvencilhar da imagem de auxiliar do médico, mas que muitas vezes acaba por realizar esse trabalho. Essa é uma parte da profissão sim, e é a que mais aparece nas novelas, filmes e seriados enlatados americanos moldando, na população, a imagem que esta tem da profissão. Vi uma outra Enfermagem desconhecida das massas, preocupada com o coletivo e o social, quase comunista, mas que enfrenta o desafio impossível de tentar implementar suas idéias num mundo individualista e regido pelo capital.
No auge das decepções do meu estágio na atenção básica, participei de um grupo de discussão que tratava justamente do papel da Enfermagem e da visão que tínhamos sobre ela. Aproveitei pra desabafar e disse muitas das coisas sobre as quais escrevi aqui. Disse ainda que “me sentia frustrado, de certa maneira, porque as grandes demandas na unidade de saúde eram pelo profissional médico: todos queriam apenas a receita médica ou marcar um exame de forma que a assistência de enfermagem parecia meio forçada para alguns”. Eu afirmei ainda que “me identificava com os usuários naquele momento, porque quando eu adoecia, procurava somente o médico também e não a Enfermagem”.
Depois que todo o vendaval do final do curso passou, percebi que fui muito injusto com minha profissão ao fazer essas afirmações, embora saiba que muitos possam ter se identificado com elas. Sempre relembro o momento em que realmente precisei de assistência que foi quando tive apendicite em 2003 e digo que, realmente, nesse momento eu não procurei a Enfermagem. A Enfermagem é que me procurou primeiro. Nas pessoas das enfermeiras Jacqueline, Maria de Lourdes e Jussara, eu recebi a melhor assistência que alguém poderia receber.
A enfermeira Maria de Lourdes veio me pegar em casa e me levou pra fazer exames, quase vomitei no carro dela. A enfermeira Jussara veio até minha casa avaliar minha ferida cirúrgica. A enfermeira Jacqueline trocou meu curativo todos os dias. Muitas dessas ações não são rotina na unidade básica?
           Concluo esse post acrescentando que a Enfermagem é uma profissão “visceral”, explorando todos os sentidos que essa palavra possa ter.