Há dois mil anos os romanos resolveram homenagear seu primeiro imperador, Augusto, dando seu nome a um dos meses do ano: agosto. Mal sabiam eles que a superstição popular mais tarde difamaria essa homenagem: agosto, mês de desgosto.
No sertão, agosto é mês de seca, de fome e de escassez, mas a sábia natureza que a tudo tenta equilibrar, por misericórdia divina nos trouxe um alívio: justamente nesse mês nasceu a minha avó.
Talvez uma das lembranças mais antigas que eu tenha da minha avó seja a de sua chegada, de ônibus, vinda de Sousa trazendo um brinquedo pra Diego e pra mim. Lembro até qual era o brinquedo, era o Pega-peixe da Estrela, um de nossos muitos sonhos de consumo infantis.
Lembrar da minha avó é, sem dúvida, lembrar de todos os aniversários, não só os meus. Ela é a única avó que conheço que faz festa de aniversário para todos os filhos e netos. Foram muito poucos os anos em que não ganhei pelo menos um bolo. E as festas da minha avó são sempre fartas e, no dia seguinte, só para os netos ela conta onde esconde a bandeja de brigadeiros.
Minha avó me lembra preocupação: ela se preocupa e acompanha todos os nossos desafios e dificuldades. Recordo do dia em que passei no vestibular e liguei pra dar a notícia: ela me parabeniza e, emocionada e sem fala, logo passa o telefone pra vovô.
São inesquecíveis as histórias da minha avó. Ela nos conta que em sua infância, seu brinquedo preferido era o galamarte e que acreditava que o mundo terminava em Sousa. Além disso, ela relata com orgulho como alimentou irmãos e filhos, e estes nos revelam como minha avó sempre teve o dom da multiplicação dos pães trazendo gosto para onde antes não havia.
Elis Regina cantou que sempre acabamos sendo “como nossos pais”. Eu, porém, acrescentaria que somos também como nossos avós. Diria que há muito da minha avó em mim. Percebo isso quando me pego comendo leite condensado de madrugada ou até mesmo na minha aversão às visitas.
Uma vez eu disse que um conjunto de talheres dourados que a minha avó possui era o “tesouro da família Abrantes”. Nesta ocasião, aproveito para fazer uma correção: aqueles talheres nada são comparados ao que a senhora consegue fazer com eles, e mesmo o seu grande dom se torna pequeno diante da grandiosa Dona Tiquinha.
Vovó, um feliz aniversário! E que a senhora possa, por muitos anos mais, trazer gosto ao agosto de nossas vidas.

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